Reflexões sobre a criança que habita em cada um de nós
- Ana Flavia Souza
- 18 de jul.
- 3 min de leitura
Hoje quero compartilhar uma reflexão que nasceu do meu próprio processo terapêutico.
Em uma das minhas sessões de psicoterapia, minha psicóloga me fez uma pergunta simples, mas muito potente:
"Como está a sua criança? O que a faz feliz?"
A pergunta permaneceu comigo por muitos dias. Achei curioso porque essa também é uma reflexão que, com frequência, proponho às pessoas que acompanho em psicoterapia. No entanto, quando a pergunta se volta para nós mesmos, ela ganha novos significados.
Há algumas semanas, durante uma viagem, tirei uma foto abraçada em uma árvore. Ela estava "vestida" com roupas por causa do frio intenso que fazia aqui no Sul, hehe, e achei aquilo o máximo, adorei. Quando olho para essa imagem, lembro exatamente de como me senti naquele momento. Minha criança estava viva: passeando, conhecendo lugares novos, brincando, rindo e compartilhando aquele dia com meu companheiro.
Enquanto escrevia este texto, outra lembrança surgiu.
Lembrei da menina Ana, que adorava brincar com a irmã e com as amigas de abraçar árvores. Fazíamos isso simplesmente porque era divertido. Não havia um motivo maior, nem uma finalidade. Apenas brincávamos, e isso era suficiente para nos fazer felizes.
Cresci em meio à natureza, aprendendo a respeitá-la, a explorá-la e a enxergar beleza nas coisas simples. Hoje, na vida adulta, percebo que a rotina, o trabalho e tantas outras demandas acabam, muitas vezes, nos afastando dessa capacidade de apreciar o que é simples. Seguimos preocupados com aquilo que precisa ser feito, com o próximo compromisso ou com o futuro, e, sem perceber, deixamos de viver pequenos momentos que também podem nos trazer alegria e conexão com nós mesmos.
No dia em que tirei aquela foto, também foi apenas uma brincadeira. Mas hoje percebo que aquele gesto despertou algo muito maior: memórias afetivas, alegria, sensação de pertencimento e o reconhecimento de que continuo alimentando essa criança que ainda vive em mim.
É interessante perceber como uma única pergunta feita em psicoterapia pode abrir caminhos para tantas descobertas. Ao mesmo tempo, ela também me fez compreender ainda mais a importância dessa reflexão quando a levo para o consultório.
A chamada "criança interior" não é um conceito que fala apenas sobre a infância vivida, mas sobre as marcas, necessidades, lembranças e potencialidades que continuam presentes ao longo da vida. Ela pode aparecer nas nossas formas de sentir, de nos relacionarmos, de brincar, de criar, de confiar e até nas feridas que ainda esperam acolhimento.
Por isso, gostaria de lhe fazer o mesmo convite que recebi:
Como anda a sua criança?
O que a faz sorrir? O que desperta curiosidade? Quando foi a última vez que você fez algo simplesmente porque lhe trouxe alegria?
Cuidar da criança interior não significa agir de forma infantil. Significa reconhecer aquela parte de nós que ainda precisa de acolhimento, afeto, segurança e espaço para viver emoções de maneira genuína.
Às vezes, ela aparece em um sorriso espontâneo, em uma brincadeira inesperada, em um abraço demorado ou na coragem de viver um momento sem se preocupar tanto com o julgamento dos outros.
Em outras ocasiões, ela se manifesta através das dores que carregamos, dos medos que insistem em aparecer ou das necessidades emocionais que, por muito tempo, aprendemos a ignorar.
Talvez cuidar da nossa criança interior seja justamente permitir que ela exista sem precisar escondê-la. Seja lembrar que crescer não significa abandonar quem um dia fomos, mas integrar essa história com carinho, respeito e compaixão.
Porque, no fim das contas, continuar adulto também pode significar preservar a capacidade de se encantar com a vida.
Ana Flavia de Souza
Psicóloga CRP 07/32124
contato: (55) 996408051