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Geração sanduíche: quando cuidar de diferentes gerações ao mesmo tempo

Foto do escritor: Ana Flavia Souza
Ana Flavia Souza
30 de set.
4 min de leitura

A geração sanduíche é um fenômeno que vem sendo cada vez mais estudado e discutido. Na minha prática clínica, também é algo que observo e acolho nas demandas de pessoas que procuram a psicoterapia, pessoas que cuidam de seus pais e de seus filhos ao mesmo tempo, experiência que tende a ocorrer com maior frequência entre as mulheres.


A meia-idade pode ser marcada por importantes mudanças na vida familiar. Os filhos podem ainda depender dos pais, enquanto os próprios pais começam a envelhecer e podem precisar de maior acompanhamento e cuidado. Para algumas pessoas, esse período significa estar entre diferentes gerações e demandas, assumindo responsabilidades em várias direções.


É nesse contexto que surge o termo geração sanduíche.


A expressão é utilizada para descrever adultos que vivenciam, simultaneamente, demandas relacionadas ao cuidado dos filhos e dos pais que envelhecem. Essa experiência pode assumir diferentes formas, como acompanhar consultas e necessidades dos pais, oferecer suporte financeiro, auxiliar nas tarefas cotidianas ou lidar com mudanças na autonomia deles, enquanto também se mantém responsável pela criação e pelo cuidado dos filhos.


Além dessas responsabilidades, continuam presentes o trabalho, a vida conjugal, as tarefas domésticas, os projetos pessoais e as próprias necessidades. Em alguns casos, essas questões acabam sendo deixadas de lado. Assim, não é apenas a quantidade de tarefas que pode produzir sobrecarga, mas também a sensação de precisar estar disponível para diferentes pessoas ao mesmo tempo, muitas vezes deixando pouco espaço para si.


Essa experiência também não é vivida da mesma maneira por todas as famílias. As condições financeiras, a qualidade das relações familiares, a presença ou ausência de uma rede de apoio, a distância geográfica entre os familiares e o grau de dependência dos pais são alguns dos fatores que podem modificar essa vivência. Junto a isso, está o nível de suporte que a geração mais nova necessita, que pode variar bastante conforme a idade dos filhos e as demandas apresentadas por eles.


Outro aspecto importante diz respeito à distribuição do cuidado. A literatura aponta que as mulheres ainda são frequentemente responsabilizadas por uma parcela maior das tarefas relacionadas ao cuidado dos filhos, dos pais idosos e da organização da vida doméstica. Dessa forma, a chamada geração sanduíche também precisa ser compreendida a partir das desigualdades na divisão do trabalho de cuidado.

Quando muitas responsabilidades se concentram em uma única pessoa, podem surgir sentimentos de culpa, cansaço, preocupação e dificuldade de estabelecer limites. A pessoa pode sentir que precisa escolher entre atender às necessidades dos outros e cuidar de si mesma, o que muitas vezes faz com que o ônus recaia sobre si, e não sobre quem está sendo cuidado. Com o tempo, essa sobrecarga pode repercutir no bem-estar, na saúde, nas relações familiares e conjugais e na qualidade de vida.


Por isso, falar sobre geração sanduíche não significa apenas falar sobre quem cuida, mas também sobre como o cuidado é organizado dentro da família. O envelhecimento dos pais, as mudanças na autonomia, a saída ou permanência dos filhos em casa e outras transições do ciclo de vida familiar podem exigir uma reorganização dos papéis e das responsabilidades.


Quando uma pessoa envelhece, quando um filho permanece mais tempo na casa dos pais ou quando uma família passa a lidar com novas necessidades de cuidado, todo o sistema familiar pode ser mobilizado. Novas negociações podem ser necessárias, assim como a construção de outras formas de relacionamento e apoio.

Nesse processo, reconhecer os próprios limites também faz parte do cuidado. Compartilhar responsabilidades, conversar sobre o que cada pessoa pode oferecer, pedir ajuda e construir uma rede de apoio não significam falta de compromisso. Pelo contrário, podem ser condições importantes para que o cuidado seja possível e sustentável.


Nem sempre essa rede estará restrita à família. Amigos, comunidade, serviços de saúde e assistência, profissionais e outros recursos disponíveis também podem fazer parte dessa rede. Ampliar as possibilidades de apoio pode ser importante para que a responsabilidade pelo cuidado não recaia sobre uma única pessoa.


Diante disso, é importante refletir sobre quem cuida de quem e sobre como podemos distribuir melhor esse cuidado. Pensar sobre isso pode abrir espaço para que as necessidades de diferentes gerações sejam consideradas sem que uma única pessoa precise assumir toda a responsabilidade.


A geração sanduíche faz parte das transformações do ciclo de vida familiar e pode trazer desafios, mas também pode ser uma oportunidade de reorganizar relações, construir novas formas de apoio e repensar o significado do cuidado dentro da família.


Quando essas mudanças passam a gerar sofrimento ou dificuldades nas relações, a psicoterapia pode ser um espaço para compreender o que está acontecendo e pensar em novas formas de organização. Dependendo das demandas, esse cuidado pode acontecer por meio da psicoterapia individual, psicoterapia de casal ou psicoterapia familiar.


Espero que este texto tenha feito sentido para você.

Com carinho,

Ana Flavia de Souza

Psicoterapeuta de indivíduos, casais e famílias

CRP 07/32124

Contato: 55 99640-8052


Carter, B., & McGoldrick, M. (1995). As mudanças no ciclo de vida familiar: Uma estrutura para a terapia familiar (2. ed.). Artmed.

Cerveny, C. M. O., & Berthoud, C. M. E. (2010). Família e ciclo vital: Nossa realidade em pesquisa. Casa do Psicólogo.

 
 

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