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Quando a dor é real, mesmo quando dizem que não é: Um relato sobre endometriose, escuta e cuidado psíquico

  • Foto do escritor: Ana Flavia Souza
    Ana Flavia Souza
  • 20 de fev.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 20 de mar.

Os últimos anos foram, para mim enquanto pessoa, um período difícil.

Convivi por muito tempo com dores constantes, cólicas intensas, inclusive fora do período menstrual, alterações no sono, desânimo e uma apatia que não faziam parte da minha rotina. Como psicóloga, e alguém que estuda há muitos anos saúde sexual e reprodutiva, eu sabia que algo não estava bem.


Quando o corpo sinaliza e a escuta falha:

Ainda assim, ouvi repetidas vezes que “não havia nada”. Exames não apontavam alterações, consultas terminavam sem respostas e, aos poucos, a dúvida começou a se infiltrar. Em alguns momentos, cheguei a cogitar se tudo aquilo não seria “coisa da minha cabeça”, expressão que tantas mulheres escutam ao longo da vida ao relatarem dor.


Esse é um ponto central quando falamos de dor crônica feminina: a falta de validação também adoece.


Em meio a isso, no ano passado iniciei fisioterapia pélvica. As dores diminuíram, mas não cessaram. Pouco tempo depois, encontrei uma médica, fora da cidade onde resido, que me acolheu, escutou minha história com atenção e validou algo fundamental: minha dor era real.

Após refazer exames, novamente fora da minha cidade, e com outra médica atenciosa e cuidadosa, veio o diagnóstico de endometriose.


O diagnóstico trouxe uma sensação ambígua: alívio por finalmente dar nome ao que eu sentia e medo diante do que viria pela frente. Mesmo sendo psicóloga, mesmo tendo estudado saúde sexual e reprodutiva e compreender sobre endometriose, também atravessei dúvidas, insegurança e exaustão.


Endometriose não é dor psicológica, mas pode gerar sofrimento psíquico


Compartilho esse relato para informar e alertar.

A endometriose é uma condição que pode ser profundamente incapacitante e impacta a qualidade de vida em múltiplas dimensões: física, emocional, relacional, profissional e sexual. Não se trata de uma dor psicológica.

No entanto, viver com dor crônica, invalidação e incertezas pode favorecer o desenvolvimento de sofrimento psíquico. Estudos apontam associação entre endometriose e sintomas ansiosos e depressivos, não como causa da doença, mas como consequência de um adoecimento que atravessa a vida cotidiana.

Por isso, falar de saúde mental e endometriose não é exagero, é necessidade.


Durante meu processo terapêutico pessoal, tive uma psicóloga que esteve comigo, sustentou minha experiência e não colocou em dúvida aquilo que eu sentia. Paralelamente, sigo em tratamento com diferentes profissionais, médica, nutricionista, fisioterapeuta, entendendo que o cuidado com a endometriose se constrói de forma conjunta.


Esse cuidado foi e continua sendo essencial.


Segurar a mão de alguém em sofrimento, escutar sem minimizar, acolher sem patologizar: isso também é tratamento.


Deixo aqui um convite:

  • Se você é uma mulher com endometriose;

  • Se você é companheiro ou companheira de alguém que convive com essa condição;

  • Ou se conhece alguém que enfrenta esse diagnóstico;

acolha, escute, valide.

Muitas vezes, o cuidado psíquico precisa caminhar junto aos demais tratamentos. Ele não substitui, mas complementa. Sustenta. Ampara.


O que esse diagnóstico também me ensinou:

O diagnóstico me ajudou a ampliar ainda mais o olhar, não apenas técnico, mas humano, para as pessoas que acompanho e que enfrentam questões relacionadas à saúde sexual e reprodutiva.

E, sobretudo, me ensinou algo essencial: a necessidade de cuidar de mim com a mesma seriedade, atenção e respeito que ofereço aos outros.


Dor sentida não é dor imaginada.

E escuta qualificada também é cuidado.


Se esse texto encontrou você em algum ponto do caminho, que ele sirva como cuidado e informação.



Para quem desejar, meu contato profissional está disponível.


Sugestões de leituras:

Barão, F. S. L., Guimarães, R. P., de Castro, E. V., & de Souza , J. C. P. (2023). O sofrimento psíquico de mulheres que se encontram em tratamento da endometriose. Cuadernos De Educación Y Desarrollo - https://doi.org/10.55905/cuadv15n10-042



 
 

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Ana Flavia de Souza – Psicóloga (CRP 07/32124)
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